sábado, 12 de maio de 2012

DEUSA SHECHINAH




A Shechinah é considerara como o "aspecto feminino de Deus", ou a "presença" do Deus infinito no mundo. Embora ela não apareça com este nome nos cinco livros de Moisés, os explicadores do Antigo Testamento referem-se a ela na interpretação do texto. Deste modo, quando Moisés encontra a sarça ardente, é dito a ele que retire as sandálias e prepare-se para receber Schechinah. Segundo os rabinos, a escolha do simples arbusto espinhoso como veículo de revelação foi feita para enfatizar a presença de Shechinah, já que nada na natureza pode existir sem ela.
Nos provérbios, somos apresentados à Mãe Divina como Chochmah (Sabedoria), que estava presente no momento da criação como consorte amorosa e co-arquiteta de YHVH, o nome impronunciável de Deus. Nesse retrato salomônio, ela se deleita com a humanidade e nos fornece sua sábia orientação no caminho da verdade e da justiça. Neste forma ela está relacionada com Sofia dos Gnósticos.
Essa associação com a humanidade foi enfatizada pelos talmudistas, que viam sofrendo quando os seres humanos erravam:
-"Atos de derramamento de sangue, incesto, perversão da justiça e falsificação de medidas fazem com que ela nos abandone."
Eles dizem:
-"O humilde fará com que a Shechinah acabe vindo morar na Terra. O maligno torna a Terra impura e provoca a partida de Shechinah." Na visão talmúdica, ações prejudiciais a outro humano fazem com que Shechinah fuja e suba para os Sete Céus.
Outra maneira de atrair a Shechinah para a Terra seria quando as pessoas necessitassem dela como consoladora. Os rabinos dizem que ela paira sobre a cama de todos os doentes e é vista pelos mortos quando saem do mundo e mergulham na grande luz. Segundo a tradição, a Schechinah aparece aos bons e justos na hora da morte, dando-lhes a oportunidade de ir direto ao centro da escada celestial em um momento de pura consciência, em uma fusão com o Divino.
A Shechinah também está ligada a expressões de amor humano, particularmente o êxtase romântico e matrimonial. É ela que abençoa o jovem casal; o brilho dos amantes é considerado reflexo de sua presença.
Dizem os rabinos:
-"Quando um homem e uma mulher são dignos, a Schechinah habita em seu meio. Se são indignos o fogo os consome.".
Existe aqui uma alusão a seu papel de Mãe Destruidora: às vezes ela é apresentada como aquela que pune a humanidade. Embora se faça referência a barreira de fogo e aos dois anjos que a acompanham, o conceito não é tão destacado quanto suas outras qualidades.
A primeira menção de Shechinah em escritos judeus foi durante o Século I da nossa era. Inicialmente, seu significado se referia à manifestação ou aspecto que podia ser aprendida pelos sentidos. No entanto, a extensa mitologia relacionada com a imagem de Shechinah e da Shechinah-Matronit (manifestação mais popular de Shechinah) como deidade feminina não alcançou seu máximo desenvolvimento até a Idade Média.
O texto definitivo da cabala, o Zohar, se escreveu no século XIII, porém certas imagens cabalísticas remontam a Filão de Alexandria, o mesmo filósofo judeu que deu uma nova definição a imagem da sabedoria. Ditas imagens também receberam a influência de textos escritos durante os séculos VII e VII na Babilônia e Bizâncio e durante o século IX em Basora. Esses textos chegaram a Europa. de onde, no início do século XI, se converteram em fundamento da cabala que se desenvolveu nas comunidades judias da Espanha e do sudoeste da França. É interessante que a cabala voltaria ao Oriente Próximo como resultado da expulsão dos judeus da Espanha em 1492, quando grupos cabalistas se assentaram em Safed, Galiléa; a cabala se estendeu até a Ásia e a África, assim como à comunidades judias de outras zonas da Europa.
Este conhecimento recebido, ou Cabala, foi desenvolvido mais tarde pelos "pietistas" alemães dos séculos XII e XIII e alcançou seu auge com a cabalistas da Espanha e de Safed.
Foi este último grupo, que vivia num enclave espiritual no norte de Israel nos séculos XVI e XVII, que esboçou com muitos detalhes as qualidades da Mulher Divina (conhecido como a "árvore da vida" ou "árvore cósmica"), as dez "sefirot"(energias criativas) são igualmente equilibradas nos lados da árvore representando, um, as qualidades femininas e, o outro, as masculinas. Neste mapa da consciência, a Shechinah é muitas vezes identificada com Malchuth (soberania) na base da árvore cósmica, que representa a energia da terra.
O Baal Shem, mestre-escola do movimento do século XVII, acreditava que as preces das mulheres subiam direto a Deus.Reconhecia também a capacidade das mulheres para a profecia e atraiu muitas seguidoras do sexo feminino. Nos primeiros anos, quando o movimento era bastante radical, a abertura ao carisma espiritual das mulheres resultou no surgimento das "rebes", em sua maior parte filhas e esposas de grandes mestres. O carisma é uma das bênçãos da Shechinah, segundo o Talmud.
Os cabalistas identificaram Shechinah com o resplendor do Espírito Santo, o pleroma chamejante de que emana toda criação, incluida a alma humana. Esse Espírito Santo, resplendor ou "glória de Deus", que os cabalistas comparam a um vasta mar, foi a primeira criação ou emanação; dela fluem todas as demais criações ou emanações. A Shechinah é imanente à alma humana, como sua "base" divina ou "corpo" desses últimos, a presença sagrada sa "glória de Deus" que levam em seu interior. Na cabalística, como no misticismo critão e no islã, o matrimônio sagrado consiste na união da alma com este Espírito Santo.Através da luz radiante de Shechinah tudo se enlaça com os demais, como se estivesse conectado por uma madeixa luminosa de ser. Ain-Soph, o mistério inefável e indestrutível da base da vida, é tanto a fonte da madeixa como imanente a cada partícula e aspecto da criação, através de Shechinah. O que se chama natureza é, portanto, a epifanía do divino.
A Shechina se chamava rainha, filha e noiva de Yahvé; era, em conseqüência, a mãe de toda a alma humana, enquanto que na cabala era especificamente a mãe da "comunidade mística de Israel" e, em último instância, de todo o indivíduo judeu. Essas almas são "chispas" de chamejante Shechinah, "espalhadas" durante o exílio, que devem"reunir-se" de novo com sua fonte. A Shechinah era designada como "Éden Místico", uma presença envolvente, não um lugar, e também como "o jardim sagrado da maçã", o "grande mar" e a fonte que transmite a vida desde sua fonte não manifesta até sua manifestação. A vida ou a criação, é concebida na união divina entre Yahvé e Shechinah. Textos e mais textos se utilizam de imagens sexuais e a imagem da luz para mostrar como "o raio que emerge do nada semeia na "mãe celestial"....de cujo ventre as Sefirot (energias criativas) surgem, como rei e rainha, filho e filha.
Um dos textos fundamentais utilizados na Idade Média para contemplação da união da deidade Shechinah era o "Cantar dos Cantares". O bíblico Cantar dos Cantares apresenta uma voz feminina dominante (a esposa) e alude a rituais de fertilidade correntes no Oriente Próximo pré-judaico. A linguagem da época está carregada de imagens sexuais e relacionadas com a terra. O lugar que ele ocupa nas sagradas escrituras judias só se confirmou no ano 100, quando o Concílio de Jamnia concluiu que se tratava de uma alegoria da relação entre Yahvé e Israel.
Como os gnósticos em seu mito de Sofia, a cabala subtraiu o mito de exílio de Shechinah. Parece haver dois tipos de exílios conectados com sua imagem: o primeiro, mitológico, surgiu a partir da expulsão de Adão e Eva, quando Shechinah compartilhou com a humanidade o exílio do jardim. O segundo exílio foi "histórico" e parte específica da história do povo de Israel. No princípio, Shechinah ou "glória de Deus" habitava no tabernáculo; era a presença que cobria com sua sombra a arca da aliança. A precedia por dia embaixo da forma de uma coluna de fumaça e à noite como coluna de fogo. Mais tarde, a arca foi colocada no templo que conStruiu Salomão, e Shechinah habitou ali. No entanto, desapareceu quando se se destruiu o templo (586 a.C.), momento em que se perdeu a arca e os judeus foram aprisionados e levados à Babilônia; ao finalizar seu exílio, no ano de 538 a.C., não se voltou a reunir com eles em Israel. Não voltará até que se produza a vinda do Messias, e não pode voltar até que se reúna com seu divino noivo, restaurando-se assim a unidade rompida da divindade. A imagem do exílio, portanto, não se associa só com o feito de que não retornasse a Terra Santa, mas sim também com seu exílio longe da divindade; é como se o feito de ser imanente a criação a houvesse separado de sua "outra metade", sua fonte transcendente e cônjuge. Em seu exílio se dá o nome de "viúva", e de "pedra do exílio" (lapis exulis), a "pedra preciosa" e "a pérola". Algumas dessas imagens são a referência de deusas anteriores. A Shechinah chora, como chorou Raquel por seus filhos, enquanto aguarda que seu exílio chegue ao fim. A oração rabínica tem por objeto provocar este fim e apressar o momento do retorno. Enquanto dure seu exílio, a criação permanece separada da deidade transcendente.
Se acreditava que a causa de seu exílio cósmico era o pecado de Adão. Scholem explica em que consistia isso:
"As Sefirot (energias criativas de Deus) foram levadas a Adão sob a forma da árvore da vida e da árvore do conhecimento;...em vez de preservar sua unidade original, unificando assim as esferas de "vida" e "conhecimento" e levando a salvação ao mundo, este separou uma da outra e dirigiu sua mente até a adoração de Shechinah, e só dela, sem reconhecer que esta última estava unidas à outras Sefirots. Desta maneira interrompeu o manancial da vida, que flui de esfera em esfera e o trouxe ao mundo a separação e o isolamento. Desse modo se abriu uma fissura misteriosa na vida em ação da Divindade, que não em sua substância...Só através da restauração da harmonia original a através da redenção, quando tudo volta ao lugar que ocupava originalmente no esquema divino das coisas, "Deus será uno e seu nome uno".
Essa fissura separa Shechinah de Yahvé e a mantêm em estado de exílio, ao "romper" a cadeia que vincula a fonte com sua manifestação; quebra, portanto, a unidade da vida. Um dos efeitos foi o de "esparzir" a luz de Shechinah em incontáveis chispas, ou "scintillae", que conformam as almas dos seres humanos. Jung faz referência a esta imagem em sua análise da natureza da psique. A unidade da vida não poderá reestabelecer-se nem a Shechinah por fim a seu exílio até que estas voltem a reunir-se. O esparzimento de Shechinah parece uma condição do espírito em sua manifestação no mundo físico.
O aspecto de Shechinah que permaneceu exilado na terra com seu povo se chama a Matronit,; a própria terra lhe chamou de "a filha". Os membros menos sofisticados das comunidades encontraram na cabala uma figura materna compassiva com que podiam relacionar-se em sua vida diária e podiam pedir socorro em seu sofrimento. Sua profunda devoção era idêntica a da grande maioria dos cristão católicos manifestam pela Vigem Maria. A imagem de Shechinah como "Matronit" voltou a instaurar a antiga iconografia da Deusa Mãe. Aliás, a idéia da "Sagrada Família", isto é, dos quatro aspectos da divindade, se desenvolveu na cabala para incluir as quatro deidades, bem definidas, de pai, mãe, filho e filha. Se outorga assim a cada indivíduo uma imagem arquetípica de sua própria experiência da vida. A sexualidade formava parte das relações entre estas deidades; os seres humanos, ao imitar a união divina, haviam devolvido a estas últimas o sentido de sacralidade que se perdeu, segundo a crença, com a expulsão de Adão e Eva do jardim. Se trata de uma visão extraordinariamente equilibrada.
No lapso de uns poucos séculos, a cabala havia desenvolvido a imagem de uma Deusa que instaurava de novo muitos detalhes próprios da imagem anterior. Se ministrou um contraponto essencial a masculinidade rigorosa da deidade judia.
No entanto, a cabala, para Scholem "continua sendo, tanto do ponto de vista histórico como metafísico, uma doutrina masculina, elaborada por homens e para os homens. A longa história do misticismo judeu não mostra rastro algum de influência feminina. Não há mulheres cabalistas." Apesar disso, a imagem de Shechinah adquiriu uma importância vital para essa tradição, sem dúvida por insistência da alma, em última instância, na inclusão do arquétipo feminino. De maneira que a imagem da consorte de Yahvé e do matrimônio sagrado entre ambos se mantive vivo, a diferença do que ocorreu no judaísmo ortodoxo, que via na sabedoria um mero atributo de Deus.
Tomando os ensinamentos da Cabala e adaptando-os à vida da comunidade de forma mais igualitária, Hasiduth restaurou a crença na capacidade de cada indivíduo de ter acesso à Shechinah e trazê-la de volta à Terra através de ações pessoais. Os elementos principais dessa prática eram a meditação e a oração com "Kavannah" (profunda fé e intenção) e "devekuth" (apego a Deus), acompanhadas de uma vida acostumada a compartilhar em que prevalecessem a justiça, a misericórdia e a caridade. Foi adicionada a essa mistura a "persona" inspirada do "Tsaddik" (santo), que fornecia a inspiração aos devotos, facilitando e afirmando experiências pessoais do divino.
Professores hassídicos viam a Shechinah como a Deusa no exílio e associavam-na à redenção dos judeus.
A obra contemporânea sobre a Deusa Shechinah, chegou até nós através de mulheres judias. Algumas delas, estudaram textos sagrados hebraicos por conta própria, a partir de fontes secundárias. São em sua maioria, musicistas, dançarinas, contadoras de histórias, rabinas, terapeutas e curadoras, que primeiro desenvolveram seus "insights" e avançando sempre, adquiriram informações complementares sobre a energia "Shechinah".
Feministas judias contemporâneas tiveram de enfrentar o sexismo na vida e na linguagem religiosas, incluindo a exclusão das mulheres das profissões sagradas. Como resultado deste ativismo, portas importantes se abriram na última década. De forma cada vez mais intensa, a Deusa está emergindo, como Deusa Múltipla ou Deusa de Mil Faces.
Como esta nova geração está servindo de parteira para o renascimento de Shechinah, temos que nos familiarizar com alguns textos antigos e algumas orações que a invocam.
Embora esteja acontecendo claramente um renascimento da consciência da Shechinah, os conceitos sobre uma Deusa Judaica ainda não influenciaram o judaísmo em sua corrente principal nem o movimento da Nova Era, que tende a considerar o feminismo judaico como um paradoxo. Ainda é cedo para saber como esta consciência contemporânea da Shechinah será absorvida pelo judaímo e pelo crescente movimento da Deusa. Embora ela precisa ser relembrada, pelo menos nossa reconstrução da Shechinah se liga à tradição sagrada. Sua filosofia básica, a que a presença dela é necessária para trazer a totalidade de volta ao Planeta, também fornece ainda, uma filosofia viva para nossos tempos.

Rosane Volpatto

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