sexta-feira, 8 de março de 2013

Você precisa de uma identidade?


Nosso sentimento de posse e apego é obra do ego.
É só o nosso ego que se apega a ideias, a expectativas, ao sentimento de ter direito, e ao que consideramos nossa identidade.
Precisamos entender que tudo que temos nesta vida é emprestado: nosso corpo, nossas posses materiais, as pessoas que fazem parte da nossa vida, nossas realizações, nossos talentos — tudo.
O que você está lendo não é conteúdo meu, não é o meu livro.
Nada do que consideramos nosso nos pertence de verdade.
Simplesmente recebemos a custódia, obtivemos esses dons e desafios para podermos tomar ciência do que seria a nossa própria perfeição.
O ego nos manda tomar posse de uma identidade específica que pode adquirir um poder enorme, ou poder nenhum, mas os dois casos são ilusão.
E essa ilusão é a origem de toda dor em nossa vida.
Muitos já ouviram falar no magnata da aviação Howard Hughes.
O patrimônio líquido de Hughes era estimado no valor estarrecedor de $43,4 bilhões. No entanto, ele desenvolveu um medo obsessivo de pessoas e de germes, que, em meados da década de 1950, começou a afetar severamente sua vida.
Em 1966 ele se mudou para Las Vegas, Nevada, onde se entrincheirou num hotel. Quando o hotel ameaçou despejá-lo, ele o comprou, e durante os anos seguintes, poucas pessoas viram Hughes, que se tornou tão recluso que raramente colocava o pé fora da sua suíte.
Em 1976 Hughes morreu a bordo de um avião indo de Acapulco a Houston.
Ele tinha se tornado tão eremita ao final da vida que o Departamento do Tesouro precisou usar suas impressões digitais para confirmar seu falecimento.
Todos nós somos mais do que o eu unidimensional que nosso ego projeta, mas podemos ficar tão apegados a uma identidade que nos esquecemos de como viver sem o personagem.
Quem é Michael Jordan a não ser um jogador de basquete?
Quando sua carreira no basquete terminar, ele deixará de existir? Claro que não. Ele é um pai, um marido, e um ser humano levando a vida.
Ao nos apegarmos a um único aspecto de nós mesmos, limitamos nosso potencial para a verdadeira plenitude como um ser completo.
Se optamos por nos apegar a uma identidade e a tornamos o centro do nosso ser, só nos restam dor e vazio quando um aspecto nosso nos é tirado.
A natureza do ego é se prender ao que é temporário.
Se optamos por abrir mão disso, não somente nos libertamos de uma grande fonte de dor, mas também estaremos abertos para a dádiva da nova etapa da vida que o Universo nos aponta.
Aliás, a identidade à qual nos apegamos nem sempre é positiva; alguns se prendem a identidades negativas.
Quem pensa que somos donos de nosso sucesso e fracasso é o ego, mas na verdade ambos são mera oportunidade.
É o que fazemos com ela que importa.
Gostamos de colocar os outros (e a nós mesmos) em categorias limitantes para fins de identificação, mas a vida das pessoas não se encaixa em compartimentos.
Não há limites para o que somos capazes de fazer ou vir a ser, desde que estejamos focados em algo exterior a nós mesmos.
A eleição presidencial dos Estados Unidos no ano 2000 foi uma disputa entre George W. Bush, o candidato republicano, e Al Gore, o candidato democrata.
Como sabemos, George W. Bush se tornou presidente.
Al Gore ganhou aquela eleição, mas George Bush assumiu o poder porque jogou com o sistema.
Aquela eleição foi tirada de Gore, alguns dizem roubada, com o testemunho do mundo inteiro. No entanto, desde a eleição, Al Gore ganhou popularidade e estatura, além do Prêmio Nobel da Paz.
Al Gore pode ter perdido a presidência, mas obteve em troca a dádiva de encontrar sua voz verdadeira, seu propósito verdadeiro, em vez de ter que sustentar o personagem incorreto exigido pelo jogo político.
Depois de tudo isso, quem é mais influente hoje, George Bush ou Al Gore?
Se Al Gore tivesse ficado preso à sua identidade de "candidato derrotado à presidência", que oportunidade ele teria perdido!
Sinto que a pancada no ego que ele tomou na frente do povo americano desalojou o apego que ele tinha a essa identidade e deu espaço para seu comprometimento desapegado ao meio ambiente— que o conduziu à produção de Uma Verdade Inconveniente, a um Prêmio Nobel da Paz e a uma maior conscientização internacional para os perigos que nosso planeta enfrenta.
Precisamos atingir um ponto em que até se todas as dádivas que temos de empréstimo fossem repentinamente tomadas de nós, mesmo assim nos sentiríamos completos.
Precisamos aceitar e dar valor a quem somos quando nossas identidades nos são arrancadas por completo.
Mesmo nessa situação, descobriremos que há sempre algum bem que podemos fazer no mundo se nos dedicarmos a ele.
A posse também tende a aparecer nos relacionamentos.
Achamos que por amarmos alguém — nossos filhos, por exemplo — isso significa que somos seus donos, e que a vida deles nos pertence.
Existe uma diferença marcante, porém, entre se importar com alguém e ser dono dessa pessoa.
Cuidar de nossos filhos é nossa responsabilidade, mas ser dono deles é uma ilusão criada pelo ego e que só causará dor e sofrimento a eles — e a nós.
O sentimento de posse aparece quando ajudamos alguém e depois nos sentimos com direito a uma parte do seu sucesso.
Um amigo meu é personal trainer.
Recentemente ele me contou que seu trabalho estava indo mal.
Aborrecido com a forma como as coisas caminhavam, ele explicou que já tinha sido treinador de um empresário com patrimônio de mais de 100 milhões de dólares. Esse cliente costumava elogiar seu trabalho como personal trainer e dizer que seu sucesso era, em parte, devido ao alívio do estresse e à boa forma que ele o ajudou a alcançar. Embora esse cliente não estivesse mais malhando com ele, meu amigo de alguma forma se sentiu no direito de participar do sucesso do seu cliente.
Perguntei a meu amigo: "Quando foi a última vez que vocês trabalharam juntos?"
"Há 10 anos", ele respondeu. "E ele continua sendo milionário?", perguntei.
"Sim. Agora tem $200 milhões!", disse.
Rindo, eu disse: "Parece que ele se deu ainda melhor sem você! Por que você ainda acha que o sucesso dele tem alguma coisa a ver com você? Abandone esse sentimento, e seu trabalho voltará a prosperar."
Vendo quanto meu amigo ficou desalentado, tentei explicar o que estava acontecendo.
O sentimento de posse pode nos levar a sentir que temos direitos, e, se não o identificamos, isso pode nos levar à autodestruição.
O fato é que coisas verdadeiramente grandes só acontecem quando não temos apego a resultados.
Infelizmente, o ego sente ter direito à gratificação.
É assim que o ego nos aprisiona num sentimento equivocado de nosso próprio valor — exagerado ou subestimado.
Imagine que a importância do trabalho de sua vida só seja reconhecida mil anos após sua morte. Se assim fosse, você continuaria a trabalhar?
Continuaria se sentindo realizado por seu trabalho?
Jesus só teve 12 discípulos próximos, durante a vida. Apesar de mais de um bilhão de pessoas praticarem o cristianismo hoje, Jesus nunca viu esse sucesso.
Sir Isaac Newton escreveu mais sobre misticismo do que sobre ciência, mas sua família manteve esses escritos ocultos depois do seu falecimento em 1727.
Só muitos séculos depois esses profundos escritos espirituais e metafísicos foram descobertos por seus descendentes.
Estudiosos que analisaram as obras concordam que Newton era uma pessoa profundamente espiritualizada, e que seus estudos científicos podem ter sido menos importantes para ele do que a compreensão do mundo não físico ao seu redor.

O objetivo é Mudança
O objetivo de tudo isto — o motivo pelo qual estamos aqui, pelo qual o mundo está aqui, e pelo qual temos o sistema e os líderes políticos que temos— é alcançar mudança.
Esse é o objetivo da vida.
Sendo assim, por que a mudança parece ser tão difícil?
Porque o ego entra no caminho.
Noventa e cinco por cento do combustível e da energia necessários para lançar um foguete são gastos na decolagem.
Os 5% restantes são usados no prosseguimento da missão.
O processo de mudança acontece da mesma maneira.
Noventa e cinco por cento da energia são necessários somente para vencer o ego. Essa é a parte mais difícil.
O ego tentará detê-lo antes mesmo de você começar. Ele não quer que você mude. Mas, uma vez tendo superado esse primeiro obstáculo, a mudança começa a criar seu próprio momentum.
Hoje pode ser que você não consiga ver nenhum resultado com sua decisão de mudar, mas à medida que você passa da primeira marcha para a segunda, e chega à marcha acelerada, a mudança ganha velocidade.
Conta-se história de um homem que precisava de mil dólares para pagar o casamento da filha. Assustado com a possibilidade de levantar uma quantia tão grande em tão pouco tempo, ele procurou a ajuda de um sábio.
O sábio o aconselhou a visitar o homem mais rico da cidade e pedir o dinheiro a ele.
Acontece que o magnata era conhecido por ser excepcionalmente pão-duro.
Apesar de ao longo dos anos muitas pessoas terem lhe pedido empréstimo, nunca tinha dado dinheiro a ninguém.
Seguindo o conselho do sábio, o homem foi visitar o avarento.
Pediu os mil dólares, mas ele negou.
Entretanto, quando o homem estava indo embora, o avarento lhe ofereceu uma moedinha.
Ofendido com o valor do presente oferecido, o pedinte simplesmente virou as costas e foi embora.
Desorientado, foi de volta ao sábio e contou o que tinha acontecido.
O sábio mandou que ele voltasse e aceitasse a moeda. "Mas isso não adiantará nada no montante que preciso conseguir para o casamento, que é esta semanal", o homem exclamou.
"Confie em mim e faça o que digo", respondeu o sábio.
O homem voltou, e mais uma vez o avarento ofereceu uma moeda, que dessa vez foi aceita.
Então, quando se preparava para ir embora, o avarento lhe ofereceu uma moeda maior. O homem aceitou novamente, e se preparou para ir embora.
E, então, o avarento lhe ofereceu um dólar. Depois vinte, e depois cem.
Não demorou muito para o homem conseguir os mil que precisava.
Exultante, correu para contar a boa notícia ao sábio, e para fazer uma pergunta: "Como você sabia que o avarento iria me ajudar? Ele nunca deu dinheiro para ninguém!"
O sábio explicou que durante toda sua vida o avarento tinha desejado ser generoso. No entanto, ele não sabia como compartilhar.
Ele só conseguia abrir mão de uma moedinha, e toda vez que ele a oferecia, ninguém aceitava.
Quando esse homem aceitou sua moedinha, o avarento se sentiu tão bem com o ato de dar que quis oferecer mais. E quanto mais dava, mais queria dar.
Isso acontece com todo o mundo.
Uma vez abertos para a mudança, o primeiro ato cria um apetite ainda maior para mudar. Começamos a querer cada vez mais crescimento em nossas vidas, e esse desejo é encorajado por uma crescente certeza de que realmente é possível mudar.
Rav Brandwein explicou a diferença entre os que fazem a transformação e os que não a fazem: os que mudam sabem logo de início que irão mudar; os que não o fazem não têm esta convicção. Precisamos saber que existe um processo, e precisamos confiar nele.
O fato de uma fruta não estar madura agora não quer dizer que ela nunca ficará doce. Precisamos aceitar a jornada e não permitir que o ego nos aprisione com seu desejo de resultados imediatos, ou nos prenda em uma sensação inflexível de nossa identidade.
Quando surge uma situação em que seu ego leva um golpe, por mais difícil que isso seja — pode acreditar, mesmo sendo a coisa mais difícil do mundo — simplesmente aceite. Abaixe a cabeça e aceite: como homem, como mulher, como AI Gore, ou como Aristóteles.
Zusha foi um dos maiores sábios de todos os tempos.
Ele viveu há cerca de 250 anos, e frequentemente viajava de cidade em cidade dando aulas e ajudando as pessoas em seus problemas.
Ele via isso como sua missão na vida.
Num dos vilarejos aonde Zusha chegou estavam dando uma grande festa. Movido pela curiosidade, aproximou-se para ver o que estava acontecendo. Observou que as pessoas lá dentro não estavam dançando nem celebrando. Estavam quase todas sentadas e desanimadas, conversando em voz baixa. Confuso, ele perguntou a um passante: "Por que estão todos tão tristes?" E ouviu: "Bem, ia haver um grande casamento hoje. Infelizmente, a família perdeu todo o dinheiro que tinha guardado para ele e não poderão mais pagar a festa."
Zusha perguntou: "Você sabe quanto dinheiro eles perderam?" E ficou sabendo a quantia exata.
No dia seguinte bem cedo, Zusha voltou à aldeia exclamando: "Encontrei o dinheiro que estava perdido!" E entregou à família um maço de notas. Surpresos, começaram a contar e descobriram que milagrosamente era a quantia exata que eles tinham juntado para o casamento. Assim que começaram a agradecer a Zusha a sua generosidade, ele os deteve e disse: "Esperem um momento. Segurem seus agradecimentos. Fui eu quem achei o dinheiro, e podia ter ficado com ele para mim, mas não fiz isso. Vocês não acham que mereço uma recompensa?"
Ele insistiu que não iria embora do vilarejo enquanto não recebesse uma recompensa por ter recuperado o dinheiro.
Os aldeões ficaram estupefatos.
Estavam prontos para transformar Zusha num herói, para descobrir em seguida que ele era tão ganancioso como qualquer outra pessoa, se não ainda mais.
O povo da cidade ficou furioso, e alguns começaram a sugerir que Zusha tinha furtado o dinheiro para pedir a recompensa. Algumas horas depois Zusha foi expulso da cidade por seu comportamento vergonhoso.
Voltando para casa ele foi ao seu mestre, que já sabia das notícias.
O mestre de Zusha disse: "Acho que você não encontrou o dinheiro. Sabendo o tipo de pessoa que você é, aposto que na verdade você deu para a família o seu próprio dinheiro. Mas que história foi essa de exigir recompensa?"
Zusha respondeu: "Sabe, na hora em que eu estava para dar meu próprio dinheiro para os noivos, eu disse a mim mesmo: Zusha, quantas pessoas no mundo fariam o que você está para fazer? Ninguém. Comecei a me sentir tão bem comigo mesmo que entendi que era meu ego vindo à tona. Tive que rapidamente conceber um plano para dar ao casal o dinheiro sem alimentar meu ego. Decidi que ser expulso da cidade por minha ganância seria suficientemente humilhante para impedir meu ego de entrar em cena."
A missão de encontrar e destruir nosso ego nos levará à grandeza.
É um dos riscos mais ousados que podemos correr. É o que nos tira da nossa zona de conforto para que possamos realmente fazer alguma diferença neste mundo. Quando superamos nosso ego conseguimos ver as verdadeiras soluções, porque passamos a estar abertos para ver o que não sabemos.
Isso nos dá força para fazer perguntas, e para não aceitar as coisas como elas aparentam ser.
Temos que cavar mais fundo para encontrar respostas não convencionais que possam nos impulsionar para um futuro melhor.
Quantos políticos pensam que por eles terem formulado uma política ou plano merecem mais poder ou maiores louvores?
Como se viu com a história de Al Gore, na verdade não são nossos sucessos que importam; é o que fazemos com nossos fracassos que nos tornam — e tornam nosso trabalho — grandes neste mundo.
A humilhação na verdade é uma das maneiras mais rápidas de atingir o ego.
O desejo de se sentir elogiado e reconhecido é um sinal revelador de que o ego está prosperando. Mas se um número suficiente de pessoas conseguir começar a enxergar plenamente seu ego e destruí-lo, atingiremos uma massa crítica, e o mundo mudará.

Como explicou o Baal Shem Tov, tudo que vemos nos outros na verdade é um reflexo do nosso próprio ego. Quando vemos em outra pessoa alguma coisa que particularmente nos incomoda, o que estamos vendo na verdade é nosso próprio ego. E mais, vemos aquilo naquele momento por ser o momento ideal para nocautear o ego.
Durante o processo de escrever estes textos, estou trabalhando em minhas próprias mudanças e desafios. Não foi coincidência eu ter tido três grandes discussões com algumas das pessoas mais importantes da minha vida enquanto redigia este capítulo. Estou grato a essas pessoas queridas, principalmente à minha mãe, a quem devo o maior agradecimento, porque elas me mostraram onde está meu ego.


Nenhum comentário:

Postar um comentário