segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Quando a mente se acalma, tudo se acalma.



Chave 1: Silêncio

O silêncio é uma forma de bater na porta do salão da verdade. Ele é a base que te prepara para qualquer prática, é o alicerce do edifício da consciência. Tudo que é belo e verdadeiro nasce do silêncio.

Um instante de silencio é suficiente para exorcizar todos os demônios, porque os demônios são os pensamentos. Se existe um pensamento compulsivo constantemente assombrando a sua mente, é porque você deu muita atenção a ele, ou seja, você o alimentou acreditando nele. Mas, ao aquietar a mente, todos os fantasmas desaparecem. Não importa quão antiga seja a escuridão, uma pequena fresta de luz dissipa toda escuridão porque ela é somente a ausência de luz. O silêncio invoca a luz. Quando a mente se acalma, tudo se acalma.

O preço para a realização espiritual é a solidão. Em algum momento você vai ter que encarar a si próprio. Por isso é fundamental aprender a ficar sozinho e em silêncio. Você também pode chamar esta prática de meditação. Mas, eu não quero que você se perca no labirinto das ideias e conceitos, na ginástica do intelecto. Permita-se apenas ficar retirado e em silêncio, observando a grama crescer. Abandone toda a pressa e todo o desejo de chegar a algum lugar.

Feche os olhos e focalize no ponto entre as sobrancelhas. Brinque de cultivar o silêncio.

Chave 2: Verdade

Falar a verdade não quer dizer que você vai sair por aí dizendo aos outros tudo o que pensa ser verdade, desconsiderando o fato do outro não estar pronto para ouvi-la, o que pode gerar mais conflito, mais guerra. Seguir a verdade significa ouvir o chamado do seu coração.

Se ainda há desconforto e sofrimento na sua vida, significa que ainda há uma camada de mentira te envolvendo. Seja corajoso para encarar suas mentiras. Sem coragem você não será capaz de encarar a verdade. Procure identificar quando você ainda não pode ser honesto com você mesmo e com a vida, quando você tem que usar uma máscara e não pode ser autêntico e espontâneo, quando você tem que fingir que é diferente do que é. Dê uma olhada nas diversas áreas da sua vida.

Você terá algum trabalho, mas é um bom trabalho. Lembre-se que “a verdade vos libertará”.

Chave 3: Ação Correta

Isso não tem nada a ver com moralismo. A ação correta, ou ação consciente, não se baseia no que está fora, ou seja, não depende da aprovação do mundo externo. Não é seguir um manual com regras sobre o que está certo ou errado. É uma ação determinada pela intuição, que é a voz do silêncio. É ter coragem de ser você mesmo, autêntico e espontâneo. Agir conscientemente significa colocar o amor em movimento, ou seja, trilhar o Caminho do Coração.

Chave 4: Não Violência

A não violência é a ação sem ego. É a atitude não contaminada pela vingança e pelo ódio. É não dar passagem para a maldade que provoca sofrimento no outro, não importa em qual nível.

A não violência ou ahimsa, como é conhecida na tradição do hinduísmo, não é cruzar os braços e ficar esperando que as coisas aconteçam. Ela, muitas vezes, envolve ação, atitude. Mas, é uma ação que nasce do coração – é espontânea e sempre vem com sabedoria e compaixão. Não é o ódio ou o medo se manifestando.

Eu mesmo já questionei o poder de ahimsa. Parece que só deu certo com Gandhi, na Índia. Mas, não é verdade. Ahimsa é o remédio que esse planeta precisa. A compaixão é o remédio e ahimsa é compaixão.

Chave 5: Amor Consciente

Eu uso esta palavra ‘consciente’, porque a palavra amor foi degenerada. Nós demos a ela tantos outros significados que não têm nada a ver com a sua essência. Para o senso comum, o amor está ligado ao egoísmo, a uma satisfação pessoal. Ele é confundido com a paixão, com o sexo e até mesmo com o ódio. Isso acontece de uma forma inconsciente: a entidade acredita estar amando porque não tem consciência do que é amor.

Não é possível definir o amor com palavras, mas eu posso dizer que amar inclui um desejo sincero de que o outro seja feliz. Inclui ver o potencial adormecido no outro e dar força para ele acordar. É querer ver o outro feliz sem querer absolutamente nada em troca. Em última instância, amar conscientemente significa amar desinteressadamente.

Mas, para que possa utilizar essa chave se faz necessário que você reconheça o seu desamor.

Procure identificar em quais situações e com quem você ainda não pode ser amoroso. Aonde e com quem o seu amor não flui livremente? Em que situações o seu coração se fecha? Aí há uma pista para você. Vá atrás dessa pista e você descobrirá muito sobre si mesmo. Essa é uma forma de trazer paz para esse mundo: aprendendo a ser amigo do seu irmão, amigo do seu vizinho.

Aprender a não julgar os erros do outro. Antes de levantar o seu dedo para acusar o outro, olhe para si mesmo, e pergunte: “Será que eu não tenho um defeito igual, ou outros até piores?” “Será que o meu vizinho não tem nada de bom para eu focar a minha atenção?” Comece a focar no bom que o outro tem. Essa é sua grande missão.

Chave 6: Presença

Estar presente significa estar total na ação. É lembrar-se de si mesmo a cada instante. Quando você pode experienciar a presença, a sua energia cresce e você percebe o amor passando por você. Se puder sustentar esse estado de alerta, você terá a percepção de que tudo é sagrado, e a partir dessa percepção, poderá expandir sua energia conscientemente na direção do outro.

Eu sugiro uma prática bem simples para o seu dia a dia. Habitue-se a perguntar: Onde estou? O que estou fazendo? Permita-se parar, apenas por alguns segundos, absolutamente tudo o que você está fazendo. No meio da ação, pare e pergunte-se: Quem está fazendo? Assim você interrompe a imaginação e volta para o seu corpo, para a presença, para a totalidade na ação. Esse é o caminho.

A presença é a chave mestra. Mas, porque não vamos diretamente para ela? Porque nem todos estão prontos para usufruir dela. Poucos estão maduros para abandonar o pensar compulsivo, já que isso lhes dá um senso de identidade. Então, em muitos casos, é necessário um trabalho de purificação que é este trabalho de transformação do “eu inferior”, para que você esteja pronto para ancorar a presença. Para isso, o corpo é o portal. Sinta-se ocupando o corpo. Sinta seu campo de energia e mova-se a partir dessa percepção.

Chave 7: Serviço Desinteressado

Servir desinteressadamente significa colocar seus dons e talentos a serviço do amor. É quando você pode se doar verdadeiramente ao outro, sem máscaras, sem necessidade de agradar ou fazer o que é certo com a intenção de ser recompensado. O único objetivo é ver o outro bilhar. Você se torna o amor que se move em direção à construção.

Acordar pela manhã, consciente de que está acordando para servir, ilumina a alegria de viver. Naturalmente, a consciência do serviço aumenta a conexão com o divino, porque, por mais que cada um tenha seus talentos e dons individuais, ou seja, uma forma particular na qual o amor se expressa através de você – é o próprio amor que está se expressando. No serviço, você se torna um canal do amor. Por isso, eu digo que o serviço é uma forma de manter a chama da conexão acesa. O amor e a felicidade passam por você para chegar ao outro, não importa o que você esteja fazendo, se está cuidando do jardim, construindo uma casa, cozinhando, cuidando de uma empresa ou de uma pessoa.

Chave 8: Lembrança Constante de Deus

Lembre-se de que Deus está em tudo: dentro, acima, abaixo, dos lados – em todos os lugares.

Ele é a vida única que age em todos os corpos e é o seu Eu Real. Essa percepção de que tudo é Um e de que a energia espiritual se manifesta em todas as formas de vida, promove um profundo contentamento. Não há palavras para descrever essa experiência, ela só pode ser vivida. A sua vida se transforma numa prece, numa oferenda a Deus. Pode passar um tsunami, mas você não se esquece de Deus. Pouco a pouco, a sua fé se torna constante e inabalável, até que possa sustentar a eterna conexão com Deus.

A partir dessa conexão, você olha para o outro e enxerga além das aparências, porque você vê somente Deus e assim pode reverenciá-lo. Este é um sincero namastê: a divindade que está em mim saúda a divindade que está em ti.

Se verdadeiramente utilizar essas oito chaves na sua vida, inevitavelmente você irá experienciar a paz. Essa é a minha experiência.

Durante a fase do desenvolvimento da consciência que eu chamo de “ABC da Espiritualidade” ou purificação do “eu inferior”, muitas vezes, descobrimos verdades pouco agradáveis sobre nós mesmos. Durante esse processo, enfrentamos obstáculos que precisam ser removidos. Aos poucos, nós aprendemos a identificá-los e removê-los e, ao removermos aquilo que não nos serve mais, podemos nos tornar canais do amor divino, para que ele flua livremente através de nós.



Sri Prem Baba

sábado, 10 de agosto de 2013

MISTÉRIOS FEMININOS


A Wicca é, entre outras coisas, essencialmente um culto lunar no qual residem os Mistérios Femininos da Antiga Europa. Os Mistérios Femininos podem ser divididos em três categorias principais: os Mistérios das Tríades, os Mistérios do Sangue e os Mistérios Obscuros. Cada um deles contém em si outros aspectos relativos dos mitos associados nos quais residem.
Os Mistérios das Tríades Femininas são compostos dos seguintes aspectos: Preservação, Formação e Transformação. Estes se relacionam aos mistérios mundanos, segundo os quais as mulheres tradicionalmente exercem domínio sobre o lar, a mesa e a cama.
Em tempos longínquos, os símbolos do poder de uma mulher estavam ligados a essas facetas da vida humana. A vassoura, o caldeirão, a lareira e o travesseiro eram símbolos de seu reinado doméstico. Em tempos antigos, as mulheres eram honradas por seu dom de alimentar a família - o lar era um local de estabilidade e tranqüilidade. As mulheres controlavam, direta ou indiretamente, todas as facetas da vida familiar e exerciam papel vital na comunidade.
Os Mistérios do Sangue (Consagração do Ventre) associam-se aos ensinamentos e ritos ligados à menstruação, ao renascimento dentro do mesmo clã e à magia sexual. Todos são conceitos extremamente antigos, que se originaram ao menos na Era Neolítica. Os Mistérios do Sangue são em sua maior parte exclusivos às mulheres e serviam para elevá-las na antiga estrutura dos clãs. O poder inerente a esses mistérios levava os homens a uma posição de anuência dentro dos primitivos cultos matrifocais. Dessa Tradição Misteriosa surgiu o clero matriarcal da Wicca.
Os Mistérios Obscuros envolvem elementos de natureza oculta. Sob essa categoria temos coisas como magia lunar, culto de Diana, de Hécate e de Perséfone, morte e renascimento, magia dos sonhos e, geralmente, elementos do "Outro Mundo". Esse é um dos mais perigosos, e talvez mais poderosos, aspectos dos mistérios. Sem dúvida, o poder pessoal resultante do domínio dessa tradição é a base do medo em relação às bruxas durante o período da Inquisição.
A Tradição dos Mistérios Femininos surgiu do fato de que as mulheres primitivas viam a si mesmas como um mistério. Havia uma necessidade de compreender coisas como o sangue menstrual, a gravidez e o parto. Esses elementos separavam claramente as mulheres dos homens, cujos corpos não apresentavam tais poderes. Para os humanos primitivos, certamente havia uma forma mágica em ação, e aparentemente ela só atuava sobre as mulheres do clã. Tal mentalidade resultou na elevação do status das mulheres e estabeleceu um sentimento de reverência entre os homens.
Originalmente, o clã funcionava como um grupo de indivíduos, uma consciência coletiva. Durante esse período, os Mistérios Femininos consistiam principalmente de ritos da fertilidade que envolviam o clã como um todo. A alteração da consciência pela qual o indivíduo (bem como as relações entre indivíduos) era importante, evoluiu gradualmente, dando origem a vários cultos interiores. Esses cultos eram extensões dos mistérios regidos pelas mulheres. Dessa nova estrutura, surgiram regras acerca das relações sexuais e da menstruação.
As mulheres foram as primeiras a perceber a ligação entre o ato sexual e a concepção. As iniciadas aprendiam como evitar a concepção juntamente com os segredos da magia do amor.
Com o passar do tempo, os indivíduos passaram a se destacar por suas habilidades especiais ou qualidades exclusivas. A mudança fica bem evidente no culto do caçador-guerreiro dos Mistérios Masculinos, em que o mais valente e o mais forte possuía papel especial. Entre as mulheres, isso se desenvolveu mais na forma de práticas xamânicas. Certos indivíduos apresentavam uma singular afinidade com o mundo natural das plantas e dos animais, e possuíam alto grau de habilidades mágicas e psíquicas. Esses indivíduos, então, se transformaram em facilitadores dos ritos tribais, alguns secretos, outros públicos.
OS MISTÉRIOS DAS TRÍADES
A transformação de tribos de coletores-caçadores em comunidades agrícolas, foi um processo instituído pelas mulheres. Elas cuidavam do fogo e preparavam as refeições; eram o centro da própria vida. Eram, também, fundamentais à construção e manutenção de abrigos; eram tecelãs, atando e unindo, criando tramas para os telhados e outras partes essenciais da casa. Também criavam vasos para armazenar alimentos e transportar água.
Durante períodos nos quais os alimentos eram menos abundantes, as mulheres controlavam a utilização das provisões ao ocultar o alimento em silos de armazenamento subterrâneo. Os homens, geralmente envolvidos em caçadas, defesa contra inimigos da tribo ou executando trabalhos braçais, não tinham ciência das atividades das mulheres. Foi dessa prática de ocultar os alimentos que as mulheres aprenderam sobre os ciclos da vida vegetal. Tubérculos e diversos grãos enterrados no solo começaram a brotar ou se enraizar, possibilitando às mulheres a primeira observação do cultivo. Habilidade em transformar barro em cerâmica e sementes em plantas foi a base para os Mistérios da Transformação. Deles evoluiu o conhecimento do preparo de poções herbais ou bebidas intoxicantes.
Tais descobertas e associações estimularam a mente das mulheres e elas desenvolveram uma consciência diferente da dos homens. As mulheres passaram a pensar em níveis mais expansivos, rompendo com as barreiras do pensamento primitivo. Os homens estavam mais concentrados nas ligações imediatas; o rastro recente de um animal significando que estava por perto, a distância a que uma lança podia ser atirada, e assim por diante. Isso estimulou diferentes modos de consciência para os homens, e eles evoluíram por um caminho mental diferente do das mulheres. Cada uma dessas mentalidades era necessária para o bem-estar do clã; sem esse equilíbrio, muito provavelmente não estaríamos aqui hoje.
O fato de que as mulheres eram, geralmente, responsáveis pelas crianças do clã, significava que elas permaneciam próximas à aldeia. A aldeia era relativamente mais segura do que a vastidão onde o perigo dos animais selvagens e dos intrusos nômades constituía uma ameaça real. Fora desse cenário, as mulheres naturalmente iniciaram a formação de sistemas sociais. Nos Mistérios da Formação, a estrutura social era matrilinear. Somente após o homem tomar ciência de seu papel na procriação, foi que esse sistema começou a se alterar. Entretanto, em algumas partes do mundo atual – como na áfrica e na América do Sul, as sociedades matrilenares ainda existem.
As mulheres estabeleceram certos fatores sociais para controlar os naturalmente fortes desejos sexuais dos homens. No livro Blood Relations – Menstruation and the Origins of Culture (Yale Univ. Press, 1991), de Chris Knight, encontramos muitos exemplos interessantes de tais estruturas sociais.
Knight teoriza que as mulheres entravam em greves sexuais para forçar os homens a sair em caçada. Retornar com carne fresca, significava o fim da greve - uma troca de sexo por alimento. Para que os homens não se preocupassem com a possibilidade de os jovens desfrutarem de privilégios sexuais durante sua ausência, as mulheres criaram tabus quanto ao coito entre irmãos e irmãs, mães e filhos. As mulheres também desenvolveram um relacionamento entre irmãos e irmãs, para que os interesses sexuais de outros machos que permanecessem na aldeia fosse inibido pelos irmãos das mulheres. Do mesmo modo como controlavam o fogo que cozinhava seus alimentos e transformava o barro, as mulheres também controlavam o fogo da natureza sexual do homem.
Assim, encontramos no antigo papel das mulheres, os mistérios da preservação, formação e transformação. Desse essencial papel, surgiram as tradições internas associadas a suas necessidades privadas e pessoais. O sistema de tabu foi originalmente criado pelas mulheres para se abster das exigências/necessidades da comunidade e, então, concentrar-se nos mistérios que as afligiam: menstruação, gravidez e parto.
OS MISTÉRIOS DO SANGUE
No livro Sacre Pleasure – Sex, Myth and Polítics of the Body (HarperCollins, 1995), Riane Eisler nos relata que os pigmeus Bambuti, da floresta do Congo, referem-se à menstruação como "ser abençoada pela Lua". Não há, naquela cultura, nada de aparentemente negativo associado ao período da menstruação.
O primeiro sangue menstrual é comemorado com uma festa chamada "elima", que envolve toda a aldeia. Após sua primeira menstruação, ser novamente abençoada pela lua no futuro é simplesmente visto como parte natural da vida da mulher, e não há nenhuma celebração posterior associada a isso. Não existem tabus ligados ao período menstrual e isso, talvez, represente bem a antiga mentalidade não-judaico-cristã.
O fluxo de sangue e seu cessar estão ambos intimamente ligados aos Mistérios Femininos. Menstruação, gravidez, parto e menopausa são aspectos do ciclo vital de todas as mulheres. O sangue, ou sua ausência, assinala naturalmente os estágios de transformação de uma mulher, desde a ruptura do hímen ao sangue do parto, ao fim dos sangramentos na menopausa. Em tempos remotos, o modo como uma mulher usava sua guirlanda era um sinal externo de qual estágio de sua vida ela já havia alcançado.
Em Blood Relations – Menstruation and the Origins of Culture, Knight nos conta que os primitivos humanos que habitavam as florestas, dormiam na copa das árvores sob o céu noturno. Os ciclos de luz da lua apropriadamente influenciavam os ciclos menstruais. A pesquisa de Knight indica que, na maioria das mulheres, o ciclo menstrual começa durante a lua nova e ela ovula por volta da lua cheia. Luisa Francia, em seu libro Dragon Time – Magic and Mystery of Menstruation (Ash Tree, 1991), também afirma que as mulheres que vivem e dormem ao ar livre (longe das luzes artificiais) estão sintonizadas a esse ciclo.
Knight apresenta algumas interessantes descobertas da biologia feminina. Um estudo sobre a duração de 270.000 ciclos de mulheres, representando todas as idades da vida reprodutiva, revelou o seguinte: a mais alta percentagem simples das mulheres do estudo, menstruaram durante a lua nova. A segunda percentagem mais alta, menstruou durante a lua crescente e apenas 11,5% menstruou durante a lua cheia. Essa pesquisa também indica que a maioria das mulheres mostraram um ciclo menstrual de 29,5 dias. Esse ciclo apresentou-se também como o mais fértil. O estudo ainda trouxe à descoberta de que mulheres heterossexuais que praticavam sexo com regularidade semanal, possuíam ciclo mais intimamente ligado ao ciclo da lua do que mulheres cuja vida sexual era de natureza esporádica ou celibatária. O estudo também indicou que os feromônios masculinos podem estar envolvidos no alinhamento do ciclo menstrual ao chamado ciclo "normal" que se inicia com a lua nova.
Nos Mistérios Femininos, vemos que o sangue menstrual era mais do que o indicador do ciclo de fertilidade de uma mulher. A vagina era vista como um portal mágico através do qual a vida surgia de uma misteriosa fonte interna. Na religião matrifocal, era um portal tanto para a regeneração física como para a transformação espiritual. As mulheres estão mais sintonizadas à sua natureza psíquica durante a menstruação. Uma vez que o fluxo de sangue menstrual tende a absorver energia, as mulheres estão mais aptas a curar os outros durante esse período. Assim, mulheres em menstruação podem absorver a energia dos outros e aterrá-la através de seu próprio sangramento físico. Uma vez que o sangue é lançado à terra, a energia é neutralizada e a cura pode ter início na pessoa adoentada.
O sangue menstrual era, também, utilizado para fertilizar as sementes para o plantio, passando a essência da vida a elas. Campos eram, por vezes, borrifados com uma mistura de água e sangue menstrual para estimular o crescimento. As sementes e plantas absorviam um pouco da energia antes que o solo neutralizasse a carga. Xamãs femininos também transferiam cargas mágicas aos campos cultivados através do sangue menstrual, criados para influenciar a mente grupal da comunidade que se alimentaria da colheita. Durante a Idade Média, as bruxas eram constantemente acusadas de enfeitiçar as plantações...
Outra função do sangue menstrual, era a de ungir os mortos. Acreditava-se que isso asseguraria seu renascimento, graças às propriedades vitalizantes do sangue que jorrava do próprio portal da vida. Durante o Neolítico e o início da Idade do Bronze, na Antiga Europa, a região do Egeu testemunhou a criação de tumbas redondas com pequenas aberturas voltadas para o leste, na direção do sol nascente. Essas tumbas representavam o ventre da Deusa, e a abertura era a sua vagina. Vasos sagrados eram utilizados para coletar o sangue menstrual para ungir os mortos. Eram vasos da fertilidade, luz e transformação. Os mortos eram ungidos com sangue menstrual e posicionados no interior das tumbas. A luz do sol nascente simbolizava a renovação e a regeneração, enquanto penetrava na abertura da tumba (o falo solar penetrando a vagina telúrica). Posteriormente, essas tumbas terrenas evoluíram na forma de montes, remanescentes do Culto ao Mortos.
Em Sacred Pleasure, Riane Eisler relata como os ritos e cerimônias funerários pré-históricos incluíam atos sexuais. Tais atos visavam conectar a tumba à energia da procriação. Símbolos espirais eram constantemente gravados em tumbas neolíticas como sinais da regeneração. Também simbolizavam a transformação xamânica da consciência que empregava cogumelos alucinógenos. Os cogumelos têm fama de afrodisíacos e sua semelhança com a genitália masculina ficava certamente evidente aos primitivos europeus. A rapidez com que os cogumelos crescem e desaparecem também contribuiu para sua associação com o falo. Assim, podemos facilmente associar as danças extáticas com os ritos funerários da magia do sangue.
Nos Ensinamentos Misteriosos, a magia do sangue está ligada às fases da lua. A lua cheia inicia a ovulação e simboliza os poderes de transformação da energia lunar (e, por consequência, da energia feminina). Por seu aspecto fértil no ciclo de uma mulher, a lua cheia é o período da mãe. Durante essa fase, é melhor formular e visualizar o que quer que seja desejável na vida de um indivíduo. As imagens mágicas lançam raízes durante essa fase, e o sangue é carregado com quaisquer formas de pensamentos que direcionamos a ele. A lua minguante põe em movimento o que foi concebido durante a lua cheia, para que se manifeste. É um período para estabelecer as conexões com o mundo físico, que irão auxiliar o fluxo de energia relacionada rumo aos desejos do indivíduo. A lua nova libera o sangue carregado do caldeirão mágico do ventre. A energia mágica é, então, usada e é tempo para reflexão e introspecção. A lua crescente é um período de potencialização, de leitura e estudos, preparando o solo fértil do ventre para a semente mágica que será plantada na lua cheia.
OS MISTÉRIOS OBSCUROS
Os Mistérios Obscuros tratam da natureza oculta das coisas e da essência secreta, tanto das coisas físicas como das espirituais. O mito dos Mistérios Obscuros se reflete em mitos como os de Deméter e Perséfone.
Nesse antigo mito, encontramos o tema da Deusa que se encontra com o Senhor do Submundo, a princípio resistindo e, em seguida, submetendo-se a seu amor. Nele, Perséfone representa a semente que desce às trevas subterrâneas onde sua energia fértil é despertada. O Submundo representa a misteriosa força que impele o broto para cima, rumo à renovação. Deméter representa a energia que alimenta o crescimento da nova planta. Esse mito greco-romano é típico dos mitos de descidas surgidos pela primeira vez na Mesopotâmia, e que migraram através do Egeu/Mediterrâneo, sendo, por fim, abraçados pelos celtas.
Os Mistérios Obscuros estão relacionados a diversas criaturas comumente associadas às bruxas e magia de modo geral. O corvo era associado à morte e ao submundo por sua ligação com o Culto dos Mortos. Acreditava-se que a alma das bruxas escocesas partiam na forma de um corvo durante o transe.
O porco era um animal sacrificado a Deméter e, também, surge em mitos ligados à bruxa grega Circe. Em tempos remotos, acreditava-se que o sangue de porco era o mais puro entre todos os animais e tinha o poder de purificar a alma, eliminando o ódio e o mal. Era associado ao Culto aos Mortos e muitos locais de sepultamento incluíam porcos ofertados às deidades do submundo.
Outra criatura associada aos Mistérios Obscuros é a rã. As secreções de certas rãs contêm bufotenima, poderoso psicotrópico alucinógeno. Suas secreções eram utilizadas no preparo de certas poções empregadas na indução a estados de transe. Certos cogumelos, como claviceps purpúrea e amanita muscaria, também eram empregados com as secreções da rã. É interessante notar que o claviceps purpúrea se forma nos grãos de centeio e sobrevive na farinha, onde é chamado de cravagem. Aqui encontramos um elo com a utilização de pão e vinho no Sabba.
Por mais desagradável que possa parecer às sensibilidades modernas, os antigos descobriram que as propriedades alucinógenas dos cogumelos ficavam altamente concentradas na urina de quem quer que os consumisse. Por estranho que pareça, esse foi o início dos Ensinamentos Misteriosos de destilação e da fermentação. Através da experimentação xamânica, outros fluídos corporais foram explorados na busca de propriedades ocultas, incluindo o sêmen, as secreções vaginais e o sangue menstrual. O emprego de fluidos corporais com finalidades mágicas é um dos aspectos da Bruxaria que foram distorcidos pelos princípios judaico-cristãos, transformando em obscenidades pervertidas.
A ligação dos fluidos a propriedades mágicas também se estendeu ao sumo de plantas, frutas e legumes. Acreditava-se que a Lua exercia influência sobre o crescimento das plantas e, também, sobre sua natureza espiritual ou mágica. Os efeitos de venenos, remédios e intoxicantes eram, a princípio, atribuídos aos poderes mágicos do espírito que habitava o interior da planta. O processo de transformação de fruta em suco, pela fermentação, foi praticado por xamãs femininas, sob os auspícios da Lua. Disso surgiram as imagens de bruxas mexendo poções mágicas em seus caldeirões.
Nos Mistérios Obscuros, a Deusa pode surgir como Aquela que Traz a Vida e a Morte, a Criadora e a Destruidora. Ela cria tempestades, chuva e orvalho, os quais podem ser tanto benéficos quanto destrutivos, especialmente para comunidades agrícolas. Do mesmo modo que a Deusa envia a água, ela também envia o fluxo do sangue menstrual.
A Lua rege as marés da Terra, bem como a das mulheres. Líquidos sempre foram símbolo da presença mística da Deusa. Seus santuários eram geralmente estabelecidos em grutas onde a água jorrava dentre as pedras. Cerimônias envolvendo a coleta e o derramamento de água são comuns em seus ritos, onde jarros com bicos fálicos eram utilizados em seu serviço.
Esther Harding (em The Women’s Mysteries, Harper Colophon Books, 1976) relata as antigas cerimônias de chamar chuva dos cultos matrifocais (que os homens eram proibidos de observar). As mulheres se reuniam nuas num curso de água e derramavam água nos corpos umas das outras. Geralmente isso envolvia a concentração numa sacerdotisa que representava a Deusa da Lua.
A ligação essencial dos Mistérios da Deusa com as mulheres, ocorre sempre através dos fluídos, seja simbólica ou fisicamente. A mente subconsciente está associada ao elemento água, assim como as emoções em geral, e estas, por sua vez, estão associadas à natureza feminina.
Onde os Mistérios Femininos não refletem a psique de algum modo, eles podem ser encontrados em associações com os fluídos corporais das mulheres. Um dos aspectos da Antiga Religião era o de objetos serem abençoados através do contato ou da inserção na vagina de uma mulher nua deitada sobre o altar.

Raven Grimassi

sexta-feira, 26 de julho de 2013

COMO OBTER AQUILO QUE SE DESEJA


Vamos falar das nossas três colunas, ou as três energias-inteligência na lâmpada. A da esquerda é receber. A da direita é dar. E qual a força do meio? É a restrição — o poder de resistir ao fluxo imediato de energia que vai do mais para o menos. É por aí que se revela a Luz.

De acordo com a Cabala, o único caminho para a satisfação é ser parte deste sistema de três colunas, no qual você tem uma oportunidade de transformar seu Desejo de Receber Somente para Si Mesmo a atração gravitacional do “eu, eu, eu” — em Desejo de Receber com a Intenção de Compartilhar.

As leis do universo são simples. Toda vez que você recebe energia somente para si mesmo — toda vez que gananciosamente obtém energia sem aplicar restrição, sem dominar seu Desejo de Receber, sem dar algo em troca —, você recebe o Pão da Vergonha.

 Você receberá a energia e ela lhe dará satisfação por um momento, criando a sensação que deseja — mas depois vem o curto-circuito e, em vez de alegria, terá negatividade e caos na sua vida.

Esta é uma lei básica da natureza, assim como a lei da gravidade. Este mundo foi projetado para que compartilhemos tudo que recebemos. BilI Cates e sua mulher, por exemplo, colocaram este compartilhar em ação em larga escala estabelecendo uma fundação filantrópica para distribuir sua grande riqueza, em escala menor criando um lar e tendo filhos.

Em termos cabalísticos, fazer restrição significa receber com a intenção de compartilhar com outros e não somente para si mesmo. E ser espiritual significa estar ali para outros seres humanos quando eles precisam de você. Você está pronto para sair de sua zona de conforto para ajudá-los. É então que a Luz do Criador pode fluir através de você e criar milagres na sua vida.

O que isto significa em termos práticos, do dia-a-dia?
“Quero alguma coisa, então primeiro tenho que dar.”
“Quero que me ouçam, então preciso ouvir os outros.”
“Quero ser respeitado, então preciso respeitar.”
“Quero ser amado, então preciso dar amor.”

Quando você se preocupa somente consigo mesmo, o Criador não pode entrar. Afinal, você já tem quem cuide de você. É somente quando você se preocupa com os outros que o Criador enxerga as suas necessidades.

No Mundo Infinito, o Receptor original tinha tudo, exceto a oportunidade de fazer por merecer a Luz que recebia. Estava atolado no Pão da Vergonha, e por isso, como o filamento da lâmpada descrito anteriormente, ele resistiu ao fluxo de Luz e recuou.

Ele disse para a Força da Luz do Criador: “Pare. Não quero mais nada até que eu possa dar alguma coisa de volta.”

Quando você é proativo — quando repele e resiste ao Desejo de Receber Somente para Si Mesmo —, imita este processo da criação.

Mas podem acontecer determinadas situações na vida que colocam você sob pressão, levando-o a dizer: “Ah, é assim? E eu, como é que fico?” No momento em que você começa a se sentir no direito de alguma coisa, deixa de ser a causa, deixa de ser parte da Luz e passa a ser reativo a ela — um efeito.

Pense na sua vida. Quando você cede à gratificação instantânea e ao egoísmo, quando deixa de se esforçar, quando não liga o motor de arranque, ou não assume responsabilidade;

 quando simplesmente segue sua tendência natural e seus desejos imediatos, quando você tem preguiça ou procrastina — neste momento está agindo como a Luz?

 É óbvio que não. Em momentos assim, na Cabala, diríamos que você está desconectado da Luz. Você está agindo a partir do Desejo de Receber Somente para Si Mesmo — o centro de tudo é o “eu, eu, eu”.
O que isto traz para sua vida? Caos e escuridão.

O propósito deste mundo físico é o de retirá-lo do sistema das duas colunas de dar e receber e, através do livre-arbítrio, criar a terceira coluna.

Esta terceira coluna representa a idéia de ser proativo e não é física. É uma questão de consciência. É como o filamento — a resistência. Sua consciência ajuda a determinar quanta Luz seu Receptor pode receber.


Se sua consciência estiver voltada para o “eu, eu, eu”, sua capacidade de receber a Luz, seu Receptor, será bem pequena. Só cabe um. Mas se você pensar no bem-estar de todo o planeta, imagine o tamanho que seu Receptor pode ter. Este tipo de consciência é transformador. Cura as pessoas e lhes permite que sintam verdadeira plenitude.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

ALQUIMIA


Nigredo, Albedo e Rubedo
Alquimia é a arte e ciência que procura a transformação do corpo e da mente com a finalidade de converter, o indivíduo que a pratica, num canal cristalino para uma nova consciência. Essa consciência, diferentemente daquela que está presente no homem natural, outorga uma percepção do mundo na qual a unidade é a característica fundamental. O alquimista percebe o elo indivisível entre o Criador, o Universo e a Natureza Humana. Esse novo “estado de ser” foi conhecido pelos antigos como a descoberta e desenvolvimento da Pedra Filosofal.
Foi chamado assim, pois em hebraico, pedra é EBEN, sendo que a primeira parte da palavra constituída pelas letras Aleph e Beth formam a expressão AB que se traduz como “pai”. A segunda parte da palavra está constituída pelas letras Beth e Nun, as quais formam a expressão BEN que se traduz como “filho”. Dessa maneira, os antigos alquimistas ocultaram no simbolismo da Pedra Filosofal o conceito místico da união do Pai com o Filho, várias vezes repetido na Bíblia, tanto nas escrituras hebraicas do Antigo Testamento como nas grego-cristãs.
Esta é a Pedra Fundamental que na Bíblia é mencionada como “recusada pelos construtores”. Efetivamente, enquanto o ser humano comum pretende construir sua vida a partir dos efeitos do mundo sensorial, o alquimista reconhece o plano das causas, o nível espiritual profundo: a consciência. Sobre essa “rocha”, a mais sólida de todas, pois a consciência nunca muda nem se vê submetida às mudanças do mundo físico, o Filósofo da Arte trabalha sua personalidade, transformando adversidades em circunstâncias de crescimento favorável em todas as facetas de sua vida.
Uma vez atingida a Pedra Filosofal, isto é, uma vez reconhecido o foco de consciência interna ou o verdadeiro EU SOU em seu interior, o alquimista consegue transmutar o Chumbo em Ouro, isto é, mudar um estado de consciência limitado e pesado, em outro resplandecente e brilhante. Nessa “transmutação metálica”, o chumbo, metal associado ao planeta Saturno, representa o estado inferior, animalizado, no qual a consciência humana se vê limitada às condições de tempo e espaço. O chumbo é o estado de sofrimento produto da ignorância ao respeito de nossa natureza divina. O ouro, um metal solar, tem a conotação de integração, pois o astro central de nosso sistema planetário sempre representou a fonte de vida e regeneração da espécie humana.
Com esse poder renovador funcionando em seu interior, conhecido como a Medicina Universal, o alquimista pode, por meio da força do Amor Incondicional, integrar sua personalidade. Será graças à aplicação dessa força harmônica que chegará no ponto em que atingirá a perfeita saúde física e mental. Nesse estado o alquimista descobre o Elixir da Longa Vida, o reconhecimento de sua essência eterna e infinita, com o qual poderá recodificar seu próprio corpo físico, libertando-o da prisão da carne, isto é, dos resíduos da genética animal que o condena à morte e assim ao renascimento.
O objetivo final, que é a culminação do que se chama Grande Obra, tem lugar no momento em que sua integração com o Cosmos e o Criador é tal que seu corpo chega a um estado de total espiritualização. Em dito momento o alquimista se liberta e ascende, através dos planos de existência, em direção a um estado de ser onde as condições são de plena bem-aventurança em comunhão com o infinito.
Três são as etapas básicas no desenvolvimento alquímico. Neste ponto é importante ressaltar que existem diversas classificações, bem como diversas óticas no uso da Alquimia.
Existe assim, para resumir, uma Alquimia Interna e outra Externa. Neste texto estamos tratando a Alquimia Interna, isto é, aquela que transmuta a personalidade do alquimista. Uma vez realizada a Alquimia Interna se torna fácil entrar na Externa na qual o alquimista é capaz de modificar o “mundo material”. Literalmente, se for necessário, poderá transmutar chumbo físico em ouro. Mas isso nada mais é do que um símbolo da capacidade que o alquimista adquire em seu domínio do plano físico, o qual pode resultar milagroso para aqueles que não compreendem a raiz de seu poder.
Agora, voltando às etapas da Alquimia, podemos dividi-las em três: NIGREDO, ALBEDO e RUBEDO.
A primeira fase é a de ignorância e a do crítico acordar. É pela qual todos nós, em momentos importantes de transformação biológica, passamos de maneira natural. Nesta forma vem como nascimento e morte, ou bem aparece nas transformações que o corpo sofre na transição entre menino e adolescente, ou deste a jovem e daí à clássica crise dos quarenta ou à velhice.
Não obstante, o alquimista ativa, por seus próprios meios o processo de transformação mais importante: a morte do ego ilusório. Durante vidas nos identificamos a uma infinidade de conceitos e intentamos faze-los rígidos, estáticos. Refugiamo-nos numa torre de apegos que em vão tentamos defender dos estragos da mudança perpétua ao que se vê submetido o mundo material.
Durante essa fase, de autêntica putrefação de antigos padrões habituais de comportamento, perfila-se pouco a pouco o alvorecer de um novo estado, no qual nossa verdadeira natureza se revela.
Este é ALBEDO, palavra que provém do termo latino “Alba”. Saindo da escuridão das nossas próprias sombras, entramos na dimensão da plena objetividade, em que o momento presente surge como a única realidade na qual vivemos. Vivendo nesse estado o corpo se transforma gradualmente até chegar a uma completa regeneração que ocorre paralela à purificação da alma que nos leva a ALBEDO, pois mente e corpo são partes de uma realidade indivisível e o que sucede em um, tem seu reflexo no outro.
A regeneração, em seu momento definitivo, nos leva ao estado de RUBEDO, o “vermelho”. Neste estado a iluminação se faz patente, um mundo novo se abre ante o “olho interior” e o estado de consciência cósmica se estabelece definitivamente. É a fase de contato pleno com a eternidade e a retificação total da alma. A Grande Obra se vê cumprida e o alquimista, cheio de amor por todos os seres, dedica-se a emanar luz a seus colegas, contemplando-os compassivamente desde as alturas da mais alta realização.
Texto do frater Juan Carlos Romera

quarta-feira, 26 de junho de 2013

TAO - Tao Te Ching


CAPÍTULO  1
O caminho que pode ser expresso não é o Caminho constante
O nome que pode ser enunciado não é o Nome constante
Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Com-Nome é a mãe de dez mil coisas
Assim, a constante não-aspiração  é contemplar as Maravilhas
E a constante aspiração  é contemplar o Orifício
Ambos são distintos em seus nomes mas têm a mesma origem
O comum entre os dois se chama Mistério
O Mistério dos Mistérios é o Portal para todas as Maravilhas

CAPÍTULO  2
Quando os seres sob o céu reconhecem o belo como belo
Então isso já se tornou um mal
E reconhecendo o bem como bem
Então já não seria um bem
A existência e a inexistência geram-se uma pela outra
O difícil e o fácil completam-se um ao outro
O longo e o curto estabelecem-se um pelo outro
O alto e o baixo inclinam-se um pelo outro
O som e a tonalidade são juntos um com o outro
O antes e o depois seguem-se um ao outro
Portanto
O Homem Sagrado  realiza a obra pela não-ação
E pratica o ensinamento através da não-palavra 
Os dez mil seres fazem, mas não para se realizar
Iniciam a realização mas não a possuem
Concluem a obra sem se apegar
E justamente por realizarem sem apego
Não passam

CAPÍTULO  3
Não valorizando os tesouros, mantém-se o povo alheio à disputa
Não enobrecendo a matéria de difícil aquisição, mantém-se o povo alheio à cobiça
Não admirando o que é desejável, mantém-se o coração alheio à desordem
O Homem Sagrado governa
Esvazia seu coração 
Enche seu ventre 
Enfraquece suas vontades 
Robustece seus ossos
Mantém permanentemente o povo sem conhecimentos e desejos
Faz com que os de conhecimento não se encorajem e não ajam
Sendo assim
Nada fica sem governo

CAPÍTULO  4
O Caminho é o Vazio 
E seu uso jamais o esgota
É imensuravelmente profundo e amplo, como a raiz dos dez mil seres
Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira
Límpido como a existência eterna
Não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste 
   
CAPÍTULO  5
O céu e a terra não são bondosos
Tratam os dez mil seres como cães de palha 
O Homem Sagrado não é bondoso
Trata os homens como cães de palha
O espaço entre o céu e a terra assemelha-se a um fole
É um vazio que não distorce
Seu movimento é a contínua criação
O excesso de conhecimento conduz ao esgotamento
E não é melhor do que manter-se no centro 

CAPÍTULO  6
O Espírito do Vale   nunca morre
Isso se chama Orifício Misterioso 
A porta do Orifício Misterioso é a raiz do céu e da terra
Seja suave e constante
Usufruindo sem se apressar

CAPÍTULO  7
O céu é constante, a terra é duradoura
O que permite a constância e a duração do céu e da terra
É o não criar para si
Por isso são constantes e duradouros
Assim
O Homem Sagrado deixa seu corpo para trás e o Corpo   avança
Além do corpo, o Corpo permanece
Através do não-corpo, conclui o Corpo

CAPÍTULO  8
A bondade sublime é como a água 
A água, na sua bondade, beneficia os dez mil seres sem preferência
Permanece nos lugares desprezados pelos outros
Por isso assemelha-se ao Caminho
Viva com bondade na terra
Pense com bondade, como um lago
Conviva com bondade, como irmãos
Fale com a bondade de quem tem palavra
Governe com a bondade de quem tem ordem
Realize com a bondade de quem é capaz
Aja com bondade todo o tempo
Não dispute, assim não haverá rivalidade
   
CAPÍTULO  9
O que é mantido cheio não permanece até o fim
O que é intencionalmente polido não é um tesouro eterno
Uma sala cheia de ouro e jade é difícil de ser guardada
Riqueza e nobreza somadas à arrogância
Trazem para si a própria culpa
Concluir o nome, terminar a obra, retirar o corpo
Este é o Caminho do Céu

CAPÍTULO   10
Quem conduz a realização do corpo por abraçar a unidade
Pode tornar-se indivisível
Quem respira com pureza por alcançar a suavidade
Pode tornar-se criança
Quem purifica através do conhecimento do mistério
Pode tornar-se imaculado
Ame o povo e governe o reino através do não-conhecimento 
Ilumine e clareie os quatro cantos através da não-ação
Abra e feche a porta do céu através da ação feminina
O que gera e cria
Gera mas sem se apossar
Age sem querer para si
Cultiva mas sem dominar
Chama-se Misteriosa Virtude 

CAPÍTULO   11
Trinta raios convergem ao vazio do centro da roda
Através dessa não-existência
Existe a utilidade do veículo
A argila é trabalhada na forma de vasos
Através da não-existência
Existe a utilidade do objeto
Portas e janelas são abertas na construção da casa
Através da não-existência
Existe a utilidade da casa
Assim, da existência vem o valor
E da não-existência, a utilidade

CAPÍTULO   12
As cinco cores tornam os olhos do homem cegos
As cinco notas tornam os ouvidos do homem surdos
Os cinco sabores tornam a boca do homem insensível 
Carreiras de caça no campo tornam o coração do homem enlouquecido
Os bens de difícil obtenção tornam a caminhada do homem prejudicada
Por isso, o Homem Sagrado se realiza pelo ventre e não pelo olho
Assim, afasta este e escolhe aquele

CAPÍTULO   13
O prestígio e a humilhação geram susto
A nobreza e a grande preocupação situam-se no corpo
O que são prestígio e humilhação?
Prestígio é inferior
Ao obtê-lo ficamos assustados
Ao perdê-lo ficamos assustados
Isto é o que quer dizer “o prestígio e a humilhação geram susto”
O que quer dizer “a nobreza e a grande preocupação situam-se no corpo” ?
A razão de eu ter esta “grande preocupação” é ter um corpo
Se não tivesse um corpo
Com que teria que me preocupar?
Por isso
Nobre é aquele que entrega o corpo ao mundo
A este o mundo pode se entregar
Quem ama faz do mundo o seu corpo
Neste o mundo pode confiar

CAPÍTULO   14
Aquilo que se olha e não se vê, chama-se invisível
Aquilo que se escuta e não se ouve, chama-se inaudível
Aquilo que se abraça e não se possui, chama-se impalpável
Estes três não podem ser revelados
Por isso se fundem e se tornam um
Enquanto superior não é luminoso
Enquanto inferior não é vago
O Constante que não pode ser nomeado
É o retorno à não-existência
É a expressão da não-expressão
É a imagem da não-existência
A isso se chama indeterminado
Encarando-o, não se vê sua face
Seguindo-o, não se vê suas costas
Quem mantém o Caminho Ancestral
Poderá governar a existência presente
Quem conhece o Princípio Ancestral
Encontrará a ordem do Caminho

CAPÍTULO   15
Os bons realizadores da antiguidade eram sutis
Maravilhosos, misteriosos e despertados
Eram profundos e não podiam ser compreendidos
E justamente por não poderem ser compreendidos
É preciso esforçar-se para ilustrá-los
Receosos como quem atravessa um rio no inverno
Cautelosos como quem teme seus vizinhos
Reservados como o hóspede
Solúveis como o gelo fundente
Genuínos como a madeira bruta
Vazios como os vales
Entorpecidos como as águas turvas
O turvo, através da quietude, torna-se gradualmente límpido
O quieto, através do movimento, torna-se gradualmente criativo
Aquele que resguarda este Caminho não tem desejo de se enaltecer
E justamente por não se enaltecer, mesmo envelhecido, pode voltar a criar

CAPÍTULO   16
Alcançando o extremo vazio e permanecendo na quietude da extrema quietude
Os dez mil seres se manifestam simultaneamente
E, através disso, contemplamos o seu retorno 
Apesar da diversidade dos seres
Cada um deles pode retornar a sua raiz
O regresso à raiz se chama quietude
Quietude se chama retornar a viver
Retornar a viver se chama constância
Conhecer a constância se chama iluminação
Desconhecer a constância é a impropriedade que provoca o infortúnio
Quem conhece a constância é abrangente
Quem é abrangente pode ser coletivo
O coletivo tem o poder da criação
A criação tem o poder do céu
O céu tem o poder do Caminho
O Caminho tem o poder do eterno
Assim,
Mesmo perdendo o corpo, não irá perecer

CAPÍTULO   17
Do supremo, o inferior tem apenas ciência da existência
Do estado que o sucede, intimidade ou admiração
Do estado seguinte, temor ou desprezo
Não havendo suficiente confiança, surge a desconfiança
Quem valoriza a palavra, realiza a obra sem deixar rastros
Assim, o povo achará que surgiu por si, naturalmente

CAPÍTULO   18
Quando se perde o Grande Caminho
Surgem a bondade e a justiça 
Quando aparece a inteligência
Surge a grande hipocrisia
Quando os seis parentes   não estão em paz
Surgem o amor filial e o amor paternal
Quando há desordem e confusão no reino
Surge o patriota

CAPÍTULO   19
Anule o sagrado e abandone a inteligência
E o povo cem vezes se beneficiará
Anule a bondade e abandone a justiça
E o povo retornará ao amor filial e ao amor paternal
Anule a engenhosidade e abandone o interesse
E não haverá mais ladrões nem roubos
Se estas três frases ditas não são o suficiente
Então faça existir aquilo em que se possa confiar
Encontrando e abraçando a simplicidade
Reduzindo o egoísmo e diminuindo os desejos

CAPÍTULO   20
No ensinamento pela supressão não há preocupações
Entre aceitar e repudiar qual a diferença?
Entre apreciar e desprezar qual a distância?
O que os homens temem, poderiam não temer?
Abandone isso antes que se esgote!
Os homens se agitam como um festejo na grande prisão
Ou como subir à varanda na primavera
Meu corpo não tem expressão
Como uma criança antes de nascer
Como a estrela Kuei   que não tem onde se apoiar
As pessoas todas possuem em excesso
Somente eu aparento estar perdendo
Sou como um ignorante que tem o coração puro
Os medíocres vivem lúcidos
Somente eu aparento estar confuso
Os medíocres vivem lúcidos
Somente eu estou introspectivo
Indefinido como uma infinita noite silenciosa
As pessoas todas têm um ego
Somente eu o ignoro considerando-o precário
O que quero que me distinga dos demais
É valorizar o alimentar-se da Mãe 

CAPÍTULO   21
A abrangência da virtude do orifício   é seguir apenas o Caminho
O Caminho, enquanto existência é indistinguível e indescritível
Dentro do indistinguível e indescritível há uma existência
Dentro do indistinguível e indescritível há uma imagem
E dentro dessa profunda obscuridade há uma essência 
Essa essência é absolutamente autêntica
E dentro dela há uma prova 
Desde a antiguidade até hoje o seu nome nunca foi esquecido
E ele pode observar a beleza e a bondade de tudo
Como posso saber a causa da beleza e da bondade de tudo?
É através da prova

CAPÍTULO   22
Curvar-se permite a plenitude
Submeter-se permite a retidão
Esvaziar-se permite o preenchimento
Romper permite a renovação
Possuir pouco permite a aquisição
Possuir muito permite a ganância
Por isso, o Homem Sagrado abraça a unidade
Tornando-a o modelo sob o céu
Não julga por si, por isso é óbvio
Não vê por si, por isso é resplandecente
Não se vangloria, por isso há realização
Não se exalta, por isso cresce
Só por não disputar, nada pode disputar com ele
Antigamente se dizia: “Curvar-se permite a plenitude”
Como poderiam ser palavras vazias?
Assim, ao alcançar a plenitude encontra-se o retorno

CAPÍTULO   23
Falar pouco é o natural
Um redemoinho não dura uma manhã
Uma rajada de chuva não dura um dia
De onde provêm essas coisas?
Do céu e da terra
Se nem o céu e a terra podem produzir coisas duráveis
Quanto mais os seres humanos!
Por isso, quem segue e realiza através do Caminho adquire o Caminho
Quem se iguala à Virtude adquire a Virtude
Quem se iguala à perda, perde o Caminho
Convicção insuficiente leva à não convicção

CAPÍTULO   24
Quem respira apressado não dura
Quem alarga os passos não caminha
Quem vê por si não se ilumina
Quem aprova por si não resplandece
Quem se auto-enriquece não cria a obra
Quem se exalta não cresce
Esses, para o Caminho, são como os restos de alimento de uma oferenda
Coisas desprezadas por todos
Por isso, quem possui o Caminho não atua desse modo

CAPÍTULO   25
Há algo completamente entorpecido
Anterior à criação do céu e da terra
Quieto e êrmo
Independente e inalterável
Move-se em círculo e não se exaure
Pode-se considerá-lo a Mãe sob o céu
Eu não conheço seu nome
Chamo-o de Caminho
Esforçando-me por denominá-lo, chamo-o de Grande
Grande significa Ir
Ir significa Distante
Distante significa Retornar
O Caminho é grande
O céu é grande
A terra é grande
O rei   é grande
Dentro do universo há quatro grandes, e o rei é um deles
O homem se orienta pela terra
A terra se orienta pelo céu
O céu se orienta pelo Caminho
O Caminho se orienta por sua própria natureza

CAPÍTULO   26
A ponderação torna enraizado o leviano
A quietude torna governado o inquieto
Por isso o Homem Superior   termina o dia de caminhada sem se afastar da ponderação e dos recursos.